O Segundo Despertar: Saúde Mental nas Transições da Menopausa e Ciclos Reprodutivos

Por Daniela Hohlenwerger, Psicóloga Clínica

Especialista em Psicoterapia Junguiana

CRP 03/28837

Para muitas mulheres entre os 40 e 50 anos surge uma tensa sensação de estranhamento de si mesma. Embora a sociedade insista em falar da menopausa apenas como o fim dos ciclos menstruais e o início das ondas de calor, a verdade é que estamos diante de uma das maiores metamorfoses psicológicas da vida feminina. 

A menopausa é um processo muito mais sutil e, por vezes, mais turbulento do que se imagina. Antes da interrupção definitiva da menstruação, atravessamos a perimenopausa, um período que pode durar anos e que funciona como uma verdadeira “montanha-russa” emocional.

O grande desafio aqui é que, enquanto os sintomas físicos (como as ondas de calor) são amplamente conhecidos, as alterações na saúde mental costumam ser negligenciadas ou confundidas com outras condições.

Para entender o que acontece na mente, precisamos olhar para os hormônios. O estrogênio não é apenas um hormônio reprodutivo; ele é um potente regulador neuroquímico. Ele atua diretamente na produção de serotonina (o hormônio do bem-estar) e dopamina (o hormônio da motivação e recompensa).

Quando esses níveis começam a oscilar de forma desordenada na perimenopausa, o cérebro feminino passa por uma espécie de “recalibragem”, ocasionando uma sensação de instabilidade emocional. Você pode se sentir profundamente irritada com algo irrelevante ou tomada por uma ansiedade súbita antes de dormir, sem que haja um problema real em sua vida que justifique tal intensidade.

Essa flutuação hormonal cria uma vulnerabilidade psicológica. Mulheres que nunca tiveram histórico de transtornos de humor podem experimentar episódios de choro fácil ou uma sensação de apatia. Aquelas que já lidaram com ansiedade ou depressão no passado podem perceber um retorno ou agravamento dos sintomas.

O perigo aqui é a autoacusação. Sem a informação correta, a mulher tende a acreditar que está “perdendo o controle” ou que sua personalidade está mudando para pior. É fundamental entender que o que você está vivenciando não é uma falha de caráter, mas um ajuste biológico profundo que exige paciência e estratégias de cuidado específicas.

Identificando os Sinais de Alerta

Diferente da TPM, que é cíclica e previsível, a perimenopausa é errática. Os sintomas podem aparecer e desaparecer sem um padrão claro. Além das oscilações de humor, é comum notar:

  • Insônia ou sono fragmentado
  • Baixa libido
  • Sensibilidade aguçada ao estresse

Reconhecer que você está nesta fase é o primeiro passo para o alívio. Ao nomear o que está acontecendo como um processo de transição, você retira o peso da culpa e pode começar a buscar o suporte necessário — seja ele médico, terapêutico ou de mudanças no estilo de vida — para atravessar essa montanha-russa com mais serenidade e autocompaixão.

Se a perimenopausa é uma montanha-russa biológica, a menopausa em si é uma travessia simbólica. Psicologicamente, trata-se do encerramento de um capítulo que, para muitas mulheres, definiu quem elas eram por décadas. Essa transição implica o luto pela despedida de uma versão de si mesma que o mundo e o espelho validavam constantemente, o que pode ser bastante difícil.

Vivemos em uma cultura que idolatra a juventude e associa o valor da mulher à sua fertilidade e ao seu vigor estético. Quando esses marcadores começam a mudar, é natural que surja um sentimento de perda.

Mesmo para as mulheres que decidiram não ter filhos, o encerramento da janela fértil traz um confronto inevitável com a finitude. É o momento em que a “possibilidade” se torna “fato”, e isso pode gerar uma melancolia reflexiva sobre as escolhas feitas e os caminhos não trilhados.

O luto também passa pela aceitação de um corpo que agora responde de forma diferente. Não se trata de vaidade rasa, mas de identidade profunda. Aprender a habitar esse novo corpo, com seu novo ritmo e suas novas marcas, é um processo psicológico de reconciliação e acolhimento.

Para a psicologia junguiana, este período pode ser concebido como o início da Segunda Metade da Vida — o momento em que a energia que antes era voltada para fora (cuidar dos outros, procriar, estabelecer-se socialmente) volta-se finalmente para dentro.

Com isso vamos nos tornando pessoas mais autênticas. Ao abandonar as obrigações da juventude, a mulher ganha o que muitas chamam de “superpoder da invisibilidade social”: a liberdade de ser quem é sem se importar tanto com o olhar alheio. É o espaço para retomar sonhos engavetados, explorar novas formas de prazer e construir uma autoridade interna que não depende da aprovação de terceiros.

O luto da identidade antiga é, portanto, o adubo necessário para que o novo “eu” floresça. É preciso deixar ir embora a parte de nós que não está mais adequada para que a mulher-sábia, dona de seus próprios desejos e de sua própria história, possa finalmente ocupar o centro da vida.

Nesse ponto, a terapia é fundamental para processar os lutos e planejar o futuro. É no espaço terapêutico que você pode falar o indizível: o medo do envelhecimento, a raiva das mudanças corporais ou o alívio (e a culpa associada) de ter os filhos fora de casa. Dar nome ao que você sente impede que essas emoções se transformem em sintomas físicos e melhoram sobremaneira a qualidade de vida.

Portanto, a saúde mental nesse período da menopausa é um convite biológico para fazer uma limpeza no que não serve mais. A mulher que atravessa essa fase com consciência e apoio está se livrando das expectativas alheias para finalmente habitar a sua própria verdade.

Referências Bibliográficas

ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e arquétipos do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. 

HOLLIS, James. A passagem do meio: da sobrevivência à resiliência: como encontrar um novo significado na meia-idade. São Paulo: Paulus, 2011.

JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras completas de C.G. Jung, v. 8/2). 

VREELAND, Diana. O cérebro feminino. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

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