Para muitas mulheres, o espelho não é uma superfície de reflexo, mas um tribunal implacável. A sensação de que “nunca é o bastante” — nem magra, nem jovem, nem simétrica o suficiente — não é um defeito individual, mas o sucesso de uma engrenagem política e social meticulosamente descrita por autoras como Naomi Wolf, Valeska Zanello e Renee Engeln.

Controle, Automonitoramento e Prateleira: as Armadilhas e o Peso da Imagem
Em sua obra fundamental, O Mito da Beleza, Naomi Wolf revela que a beleza não é uma questão de aparência, mas de controle. Wolf argumenta que, à medida que as mulheres conquistaram espaços legais, políticos e profissionais, o “mito da beleza” surgiu para atuar como um freio.
Se antes as mulheres eram controladas pelo ambiente doméstico, hoje são controladas pela vigilância constante de seus próprios corpos. O mito funciona como um “dispositivo de autopoliciamento”, desviando a potência criativa e política feminina para uma busca incessante por um ideal inalcançável.
A psicóloga Renee Engeln, em seu livro Beauty Sick (Doença da Beleza), expande essa crítica ao diagnosticar a obsessão cultural pela aparência como uma patologia social. Para ela, a doença da beleza não é sobre ser vaidosa, mas sobre o custo cognitivo avassalador de viver em constante automonitiramento corporal.
Esta autora argumenta que as mulheres são treinadas para ver a si mesmas como objetos de visão (o olhar do outro) em vez de sujeitos de ação. Esse processo consome recursos mentais que deveriam estar voltados para a educação, carreira e relacionamentos, gerando uma exaustão psíquica onde a mulher nunca se sente pronta para o mundo se não estiver perfeita.
A psicóloga brasileira Valeska Zanello aprofunda essa análise ao dispor que as mulheres são subjetivadas através do dispositivo do amor (dependência da validação externa) e do dispositivo da beleza (a aparência como moeda de troca social).
Desse modo, as mulheres permanecem numa “prateleira”, ou seja, uma vitrine simbólica onde são avaliadas, escolhidas ou descartadas. Quanto mais distante do padrão hegemônico (jovem, magra, branca), mais a mulher é empurrada para o fundo da prateleira, resultando em invisibilidade social e sofrimento psíquico profundo.
O Espelho Digital: Redes Sociais e a Dismorfia em Jovens
Pesquisas recentes (2024-2025) demonstram que as redes sociais, como Instagram e TikTok, levaram essa vigilância a um nível algorítmico. O uso constante de filtros de “aperfeiçoamento” e a exposição a corpos editados têm gerado um aumento alarmante no Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) em mulheres jovens.
O tribunal da beleza agora é portátil e funciona 24 horas por dia. O fenômeno da “dismorfia do Snapchat/TikTok” faz com que jovens mulheres busquem procedimentos estéticos para se parecerem com suas versões filtradas, criando um abismo intransponível entre o corpo real e a imagem digital. O resultado é um ciclo de ansiedade, depressão e uma desconexão severa com a própria imagem.
“A Substância”: A Metáfora Visceral do Autodesprezo
O filme A Substância (Coralie Fargeat, 2024) serve como uma metáfora brutal e literal dessa dinâmica. Ao escolher injetar uma droga para gerar uma versão melhor e mais jovem de si mesma, o filme ilustra o horror da fragmentação da identidade feminina sob a pressão estética.
A obra revela a face mais perversa do mito da beleza: a ideia de que a versão jovem é um parasita que se alimenta e, eventualmente, destrói a mulher real. A busca pela “Substância” — seja ela um filtro, um preenchimento ou uma dieta extrema — é, na verdade, um ato de violência contra o próprio ser. O filme ecoa a tese de Wolf e Engeln: a obsessão pela perfeição é uma forma de autofagia onde a mulher sacrifica sua própria vida em nome de uma imagem que o sistema validará, mas que nunca a pertencerá.
O Peso na Psique e o Papel da Psicoterapia
Essa cobrança interna é o solo onde brotam transtornos alimentares (anorexia, bulimia) e a fragmentação da autoestima. O adoecimento ocorre quando a mulher passa a se enxergar apenas como um corpo-objeto.
A psicoterapia de orientação feminista ou crítica oferece o caminho da ampliação da consciência, do letramento de gênero e da despatologização daquilo que em realidade é opressão e controle.
A partir desse espaço terapêutico e do processo de autoconhecimento, as mulheres encontram um espaço de acolhimento e escuta, onde podem externalizar a culpa, a insatisfação com a imagem, compreensão das opressões e dos mecanismos de controle que sequestram seus corpos e autonomia, encontrando novos significados para sua existência sustentada por seus valores internos.
Portanto, libertar-se do mito da beleza não é sobre abandonar o cuidado, mas sobre retirar da aparência o poder de definir a dignidade humana. É entender que seu corpo é sua casa, e não um produto em exposição permanente.

Que não permaneçamos paralisadas por esses mecanismos sociais de controle. Que reconheçamos nossa força e utilizemos a criatividade para nosso desenvolvimento emocional capitaneando uma revolução nas bases estruturais do patriarcado e contribuindo para cenários sociais mais saudáveis para nós e nossos descendentes.
Referências Bibliográficas
WOLF, Naomi. O Mito da Beleza: Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rosa dos Tempos, 2018.
ZANELLO, Valeska. Saúde mental, gênero e dispositivos. Appris, 2018.
ENGELN, Renee. Beauty Sick: How the Cultural Obsession with Appearance Hurts Girls and Women. Harper, 2017.
FARGEAT, Coralie. The Substance (Filme). 2024.
CZUBAJ, N. et al. The Impact of Social Media on Body Image Perception in Young People. Nutrients/PMC, 2025.