A dependência emocional é um quadro marcado por medo intenso de abandono e de solidão, baixa autoestima, dificuldade de autonomia afetiva e sofrimento diante da separação.

Ela precisa ser compreendida como sendo resultado de atravessamentos simbólicos, culturais e históricos que estruturam a subjetividade das pessoas, especialmente de mulheres em contextos de apego inseguro, trauma relacional e socialização afetiva desigual.
Essa dependência afeta a autopercepção e o comportamento relacional da mulher de modo a prejudicar o seu bem-estar geral e está atrelado a altos níveis de ansiedade e depressão.
O feminino ferido e o animus negativo
Um feminino ferido cria o terreno psíquico para a atuação de uma instância interna negativa, frequentemente inconsciente, que pode se manifestar de forma tirânica e opressora – o animus. Ele atua como uma voz crítica e autoritária, que convence a mulher de que ela não tem valor e precisa do outro para existir, decidir ou se sentir completa. Essa voz mina a confiança no próprio desejo e fragiliza o eu, empurrando a mulher para relações nas quais o outro passa a ocupar o lugar de sustentação identitária.
Essa dinâmica interna favorece relações assimétricas. O parceiro é investido de funções que ultrapassam o campo do amor e da alteridade, tornando-se uma figura quase salvadora, capaz de acalmar angústias profundas, preencher vazios estruturais e oferecer uma sensação provisória de completude e sentido. Quanto maior esse investimento, mais frágil se torna a autonomia emocional, e mais ameaçadora se torna a possibilidade de perda. O vínculo deixa de ser escolha e passa a ser vivido como necessidade vital.
Muitos mitos e narrativas culturais associam o feminino ao amor incondicional e à entrega, o que pode levar ao aprisionamento da mulher em papéis de cuidado extremo, abnegação e autoapagamento. Tal qual a Penélope, esposa de Ulisses, retratada na Odisseia de Homero, a mulher compreende o amor verdadeiro como aquele que suporta a ausência, a solidão e a suspensão da própria vida, que a fidelidade feminina é medida pela capacidade de permanecer, enquanto a masculina é relativizada pela aventura e pelo desejo.
Então, histórias como a de Penépole, que atravessam as mulheres glorificando o sacrifício amoroso, a renúncia de si e a fusão como provas de amor verdadeiro, operam como organizadores simbólicos do inconsciente coletivo, naturalizando a ideia de que amar é abdicar, suportar e permanecer, mesmo à custa da própria integridade psíquica.
Nesse contexto, o amor deixa de ser um encontro entre dois sujeitos inteiros e passa a funcionar como uma estratégia de sobrevivência psíquica: amar para não desmoronar, para não ser abandonada, para não perder o senso de valor.
A subjetivação feminina
A dependência emocional feminina não surge no vazio, tampouco pode ser compreendida como resultado exclusivo de escolhas individuais ou fragilidades subjetivas. Ela é produzida, legitimada e continuamente reforçada por um sistema patriarcal que, ao longo da história, condicionou as mulheres a encontrarem valor, reconhecimento social e segurança psíquica prioritariamente — quando não exclusivamente — através do vínculo amoroso. Nesse arranjo social, amar não é apenas uma experiência afetiva, mas uma necessidade estruturante da identidade feminina.
Simone de Beauvoir (2016) aponta que a mulher é historicamente educada para fazer do amor um destino existencial, enquanto ao homem é permitido vivenciá-lo como experiência não central à sua identidade. Essa pedagogia afetiva produz assimetrias de gênero profundas e compreender isso desloca o sofrimento causado pela dependência emocional de um excesso gendrado para um efeito dessa formação afetiva desigual.
Nesse sentido, Valeska Zanello (2018), ao articular gênero e sofrimento psíquico, demonstra que essa pedagogia segue operando por meio do que ela denomina a “prateleira do amor”. É uma metáfora que a autora utiliza para demonstrar que a construção da identidade feminina é mediada pelo olhar de um homem que as escolha e valore.
Estar “na prateleira” significa estar disponível, desejável, adequada aos critérios vigentes de escolha — que incluem juventude, beleza, docilidade, capacidade de cuidado e tolerância emocional. Não ser escolhida, ou ser retirada da prateleira (por separação, abandono ou envelhecimento), é vivido como desclassificação simbólica.
Desse modo, não atendendo aos ideais impostos socialmente para fazer jus a essa prateleira, mulheres tem sua autoestima comprometida, sendo alvo de um preterimento afetivo dos homens. Isso a vulnerabiliza, pois a põe refém de uma escolha sobre a qual não tem controle, mas que é importante para agregar valor a si mesma.
Clinicamente, isso aparece de forma recorrente em mulheres que associam autoestima e autorreconhecimento ao status relacional: estar em um relacionamento, ser desejada, ser “a escolhida”. A pergunta silenciosa que atravessa muitas falas clínicas é: “se não me escolheram, o que há de errado comigo?” A prateleira transforma o amor em medida de valor pessoal. E para ser escolhida e ter valor, mulheres passam a tolerar relações violentas, negligentes ou frustrantes que lhes causa intenso sofrimento.
Assim, a dependência emocional é uma estratégia de sobrevivência psíquica: se dispor integralmente e amar para não desmoronar, para não ser abandonada, para não perder o senso de valor. O vínculo amoroso torna-se o principal organizador da vida emocional, e qualquer ameaça a ele é vivida como risco de aniquilamento psíquico. Romper com o vínculo, nesses casos, não significa apenas enfrentar a dor da perda, mas confrontar um vazio identitário produzido por décadas de ensinamento cultural que associou amor à existência.
Individuação e autonomia: um caminho possível
O processo de individuação — tornar-se quem se é — exige o rompimento com identificações inconscientes e a integração de aspectos negados da psique. Para muitas mulheres, isso implica questionar o mito do amor salvador e romântico, confrontar essa voz interna negativa e resgatar partes de si que foram sacrificadas em nome da relação e do pertencimento à prateleira do amor.

O diálogo com o feminismo amplia esse caminho ao politizar o sofrimento psíquico, retirando-o do campo da culpa individual e inserindo-o em uma trama histórica e coletiva. Autonomia emocional, nesse sentido, não significa isolamento afetivo nem a negação do amor, mas a capacidade de ser mulher e de se relacionar sem desaparecer.
A superação da dependência emocional passa, portanto, por um movimento duplo: interno e externo. Internamente, exige escuta, elaboração simbólica e fortalecimento do eu. Externamente, demanda a construção de novas narrativas sobre o feminino, o amor e o valor da mulher para além da função relacional.
Considerações finais
Compreender a dependência emocional feminina é reconhecer que o sofrimento psíquico das mulheres carrega marcas políticas e sociais. Curar-se, nesse contexto, é romper com essas estruturas opressivas e transformar a forma como o amor é vivido, simbolizado e sustentado.
Trata-se de um processo de reconexão com a própria autoridade psíquica, no qual amar deixa de ser sinônimo de perder-se e passa a ser uma escolha consciente entre sujeitos inteiros. É somente quando o amor deixa de ser condição de existência e passa a ser expressão de escolha que ele pode, de fato, tornar-se encontro.
Referências
JUNG, Carl Gustav. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2011.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
HOOKS, bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.
ZANELLO, Valeska. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Curitiba: Appris, 2018.