Você já sentiu que, mesmo em repouso, sua mente permanece acelerada? Um cansaço que o sono não cura? Esse esgotamento tem nome e endereço: ele mora na sobrecarga materna e na ideia perigosa de que o cuidado é um dever natural feminino.
Como aponta Vera Iaconelli, precisamos parar de romantizar esse peso: “O amor materno não é um instinto, mas uma construção de vínculo que exige amparo social, e não apenas sacrifício individual.” A autora nos provoca a entender que, ao contrário do que dita o senso comum, o “instinto materno” é um mito que serve para silenciar a angústia feminina.

Para ela, inscrever a maternidade na biologia feminina é uma forma de justificar a subalternização das mulheres nos cuidados com os filhos e com injustiças, como por exemplo, a não contratação de mulheres em idade fértil, salários menores em cargos iguais e demissão quando do retorno da licença maternidade.
A autora argumenta que a sociedade cobra uma entrega absoluta da mãe sem oferecer a contrapartida do cuidado. Portanto, o esgotamento materno não nasce da incapacidade da mulher em desempenhar o cuidado, mas de um desamparo estrutural onde o Estado e a comunidade depositam na mãe uma responsabilidade que deveria ser coletiva.
A subjetivação Feminina e o Dispositivo Materno
A base dessa sobrecarga reside na “mística da maternidade“. Por séculos, aprendemos que o amor de mãe deve ser incondicional e abnegado. Essa narrativa serve ao sistema: se o cuidado é “natural”, ninguém precisa discutir pagamento ou divisão de tarefas. No entanto, quando transformamos o cuidado em um destino biológico, negamos à mulher o direito ao cansaço.
A sociedade patriarcal vende a maternidade como plenitude absoluta, mas a realidade revela isolamento. Sob a ótica de Valeska Zanello, o “dispositivo amoroso” captura as mulheres através de uma pedagogia de afetos que vincula o valor feminino à capacidade de doação. Segundo a autora, “historicamente, as mulheres aprenderam a ler o mundo através dos outros, tornando-se ‘especialistas’ em sentimentos alheios enquanto negligenciam os próprios.”
O Mito da Perfeição
Iaconelli reforça que a pressão pela perfeição adoece, pois “a mãe ‘suficientemente boa’ só emerge quando a sociedade a retira do pedestal de santa para devolvê-la à sua condição humana, com desejos e limites.” Zanello explica que essa mitificação do sacrifício e da devoção que permeia a imagem da mãe ideal é uma forma de subjetivação feminina, onde a mulher se encontra identitariamente, mas também uma engrenagem opressiva que cobra e promove culpa. “O sistema construiu a identidade feminina para servir, e o esgotamento é o preço de tentar sustentar um ideal de amor que tudo suporta”, afirma a pesquisadora.
A culpa é o sintoma de que o dispositivo materno está inscrito na identidade feminina. É também uma forma de controle afetivo que a cultura exerce sobre as mães, que quando não funciona, implica mecanismos punitivos como a psiquiatrização do cansaço e do sofrimento, bem como a jurisdicização e atuação do sistema socioassistencial.
A Ética do Cuidado e a Psicologia
Quando o cuidado se torna uma jornada solitária, a mãe experimenta exaustão emocional e distanciamento afetivo. Enxergar esse quadro demanda uma reavaliação e a adoção de uma verdadeira Ética do Cuidado. O feminismo propõe que o cuidado seja um valor humano universal, e não uma característica feminina. Isso exige que pais, familiares, Estado e empresas compartilhem a responsabilidade pela vida. Como defende Iaconelli, o cuidado é uma questão política: “É preciso coletivizar a criação das crianças.”
O caminho para lidar com a angústia passa pela desidealização. A mulher precisa se autorizar a ser “suficientemente boa” em vez de impecável. Isso exige coragem política para cobrar o outro e coragem psíquica para enfrentar a culpa.
Nesse cenário, a psicoterapia atua como ferramenta de libertação fundamental. Ela oferece um espaço seguro para compreensão da angústia, do sofrimento e culpa decorrentes do maternalismo e, dessa forma, encontrar recursos pessoais para desconstruir este sistema opressor. E mais. Para além de aliviar sintomas, a terapia transforma a qualidade de vida ao fortalecer a autoautorização: o movimento de retomar as rédeas da própria trajetória e compreender que o autocuidado é uma estratégia política de sobrevivência.
Referências Bibliográficas
FEDERICI, Silvia. O patriarcado do salário: notas sobre Marx, gênero e feminismo. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2021.
IACONELLI, Vera. Manifesto antimaternalista: por uma ética do cuidado. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.
ZANELLO, Valeska. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. 2. ed. Curitiba: Appris, 2018.